Entrevista

retorna na próxima edição. Nesta, apresentamos a matéria ESPECIAL MERCADO.

O SOBE e DESCE no mercado brasileiro de feiras e eventos em 2015.

2015

O que subiu e desceu no ano que passou no setor  de feiras e eventos.

2015 foi um ano complicado para o setor de feiras e eventos de negócios. O mercado, que já vinha sofrendo com uma certa apreensão de investimentos em feiras pelas empresas (influenciados pelos altos custos, falta de infraestrutura de pavilhões e marketing inadequado), deparou com o agravamento da crise econômica do País, principalmente em setores considerados lucrativos: como o automotivo, construção e indústria. Mesmo com esses entraves, o ano foi movimentado. Diante disso, apresentamos o que ficou em alta e em baixa no setor brasileiro. Confira:

SEGMENTO DE MERCADO
subiu30Games

desceu30Automotivo

Enquanto as feiras de games transformaram-se nas grandes atrações de 2015, com filas de visitantes e muito espaço na mídia, o automotivo sofreu um baque com a crise do País. Com isso, grandes feiras como a Fenatran por pouco não aconteceram. A expectativa maior agora é com relação ao Salão do Automóvel em 2016, que, assim como a Brasil Game Show, se transferiu para o novo pavilhão São Paulo Expo (antigo Imigrantes).

PROMOTORA
subiu30 UBM

desceu30 Clarion

Em meio à guerra de gigantes (Reed Exhibitios Alcantara Machado e BTS Informa) pela liderança do mercado, a UBM roubou a cena e adquiriu a Feira+Fórum Hospitalar. Um sólido produto, com forte imagem de marca e que deu um novo impulso aos negócios da companhia no Brasil. Por outro lado, a Clarion Events entrou e saiu 2015 como uma incógnita – mais um ano que isso acontece – sem deixar claro seus planos e investimentos para o Brasil.

PROFISSIONAL
subiu30 Maria Antônia S. Ferreira

desceu30 Marco Antônio Mastrandonakis

Após comercializar as feiras ExpoCarne e ExpoAgro para a BTS Informa, Maria Antônia S. Ferreira ficou no freezer por algum tempo. Saiu em 2015, criou a Enterprise Feiras & Eventos e retornou com força total ao ramo com o lançamento da MercoAgro e ExpoMeat, voltadas à indústria frigorífica. Já Marco Antônio Mastrandonakis, profissional experiente com mais de 25 anos dedicados ao setor, ficou pouco mais de um ano no cargo de diretor geral da Cipa Fiera Milano no País.

FEIRA
subiu30HOSPITALAR

desceu30ADVENTURE SPORTS FAIR

Após várias tentativas de compra de promotoras internacionais, Francisco Santos e Waleska Santos, presidentes do Grupo São Paulo Feiras (Couromoda), conseguiram valorizar ainda mais a Feira+Fórum Hospitalar e a comercializou no momento certo para a britânica UBM. Já a Adventure Sports Fair, da área de turismo de aventura, sofreu com crise e foi cancelada. Isso num momento em que a demanda por esse tipo de serviço cresce entre 15% e 25% a cada ano, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo (OMT). A Promotrade, sua organizadora, promete uma versão reestruturada para 2016.

ENTIDADE
subiu30 Abimaq

desceu30 Abiplast

O Projeto Feiras Industriais, iniciativa da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – movimentou o setor de feiras em 2015. Com ele, três novos produtos foram lançados (Feimec, Expomafe e Plástico Brasil) e em um novo pavilhão: São Paulo Expo. Já a ABIPLAST – Associação Brasileira da Indústria do Plástico – tem demonstrado pouco fôlego após os problemas com a marca Brasilplast, fusões e compras de empresas no setor, e lançamento de novas feiras no ramo do plástico, coordenadas por outras entidades.

EXPOSITORES
subiu30 chineses

desceu30 latino-americanos

Parece que a ordem de 2015 na maioria das feiras brasileiras foi: há espaço vazio, chama os chineses. E, como sempre, eles vieram com muita garra e fome (a maioria come no próprio estande atendendo aos clientes). As feiras brasileiras sofreram uma invasão de chineses. Já os nossos vizinhos latino-americanos praticamente desapareceram dos eventos nacionais.

CENTRO DE EXPOSIÇÕES
subiu30São Paulo Expo

desceu30 Anhembi

O lançamento do novo pavilhão São Paulo Expo (antigo Imigrantes), administrado pela francesa GL Events, injetou novo ânimo (e investimentos da ordem de R$ 300 milhões) no mercado brasileiro de feiras. As grandes feiras do País aderiram ao projeto e deixaram o tradicional, mas velho Anhembi. Isso fez com que os outros centros de exposições, principalmente em São Paulo, se movimentassem para não perder clientes. Inclusive o Anhembi, que correu e abriu licitação para reformas.

REGIÃO
subiu30Região Sul

desceu30Região Nordeste

Em silêncio, o mercado do Sul virou a bola da vez no setor de feiras e eventos regionais. Com o apoio de sindicatos e entidades locais, suas feiras crescem em número de expositores e visitantes. Algumas, inclusive, já começam a incomodar eventos tradicionais da principal praça São Paulo. Já a região Nordeste, anunciada como uma grande vedete econômica, embora tenha investido em novos centros, como o de Fortaleza e Natal, vem demonstrando dificuldade para atrair grandes eventos. Promotoras como a Reed Exibitions, São Paulo Feiras (Couromoda) e Francal, suspenderam investimentos na região.

FEIRA REGIONAL
subiu30Zero Grau

desceu30 Ficcan

Em sua quinta edição, a feira Zero Grau caiu no gosto dos expositores e visitantes do setor de calçados e acessórios. Realizada em Gramado, contou com 300 expositores e mais de 900 marcas e mostrou que está na data e local (próximo dos principais fabricantes) que o mercado precisa. Já a Ficcan – Feira Internacional de Calçados e Artefatos Norte e Nordeste ficou literalmente pelo caminho e foi cancelada. O projeto, que já tinha sido adiado de 2014 para 2015, era um evento conjunto da Couromoda e Francal e aconteceria no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.

AÇÃO DE MARKETING / PROMOÇÃO EXPOSITOR
subiu30Assessoria de Imprensa

desceu30 Viagens Promocionais

Infelizmente no Brasil poucas são as empresas que sabem fazer uso da ferramenta assessoria de imprensa no composto de marketing para alavancar negócios. O mercado de feiras está acordando para isso. E muito se deve aos esforços de profissionais que há anos batalham neste setor como Luiz Carlos Franco, da Primeira Página, e Myrian Vallone, da 2 Pró Comunicação. Na contramão, devido aos cortes de verbas do marketing, as viagens para promoção das feiras tornaram-se cada vez mais escassas nos planos de divulgação dos eventos.

AÇÃO DE MARKETING / PROMOÇÃO VISITANTES
subiu30Credencial

desceu30 Convite Impresso

A Reed Exhibitions Alcantara Machado mostrou porque é, ainda, a número 1 do mercado. Lançou um modelo de credencial que o visitante imprime, por completo, em questões de segundo e somente precisa pegar na entrada da feira o suporte para inseri-la. Nota 10 em agilidade e comodidade para o público. Já os convites impressos das feiras, antes encartados em revistas e distribuídos para os expositores enviarem aos seus clientes, encalharam-se, transformando em custos para as empresas e publicações.

MÍDIA
subiu30 Mídias Sociais

desceu30 Revistas Impressas

No segmento feiras de negócios as mídias sociais desempenham papel cada vez mais importante no composto de marketing. Porém, faltam habilidades profissionais à maioria das empresas em trabalhá-las nas etapas promoção expositor e promoção visitantes. Em 2015, elas conquistaram espaços de destaques no composto promocional das feiras. Já as revistas impressas mostraram dificuldades em adaptar à esta nova realidade do marketing digital. Algumas delas nem mídias sociais possuem e, quando têm, ficam praticamente paradas.

O Dono do Jogo

Proprietário e diretor geral da Nascimento Feiras e Eventos de Negócios, com mais de 40 anos de atuação no setor. www.nascimentofeiras.com.br

O embate atual entre as duas principais promotoras de feiras no mercado brasileiro tem um estrategista: Evaristo Nascimento. Depois de Caio de Alcantara Machado, que inaugurou e impulsionou o segmento no País, ele é o profissional que influenciou alguns dos principais movimentos desse mercado nos últimos tempos, seja na direção de grandes eventos ou, agora, como consultor. Seu último grande lance foi a idealização do projeto de feiras industriais, uma iniciativa da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.

 BMF – Neste tabuleiro de xadrez que se transformou o mercado de feiras, uma peça importante anda em falta, a do profissional empreendedor que desenvolve novos projetos, analisa e conhece esse mercado. Por isso que o senhor continua na ativa e recebendo propostas de empresas?

Evaristo – O mercado de feiras e eventos de negócios se desenvolveu muito nos últimos anos, principalmente nas áreas de promoção do expositor e do visitante. Novas ferramentas foram introduzidas e tornaram os processos mais dinâmicos e seguros com o aparato tecnológico introduzido pelas multinacionais. Se observarmos desde a primeira feira realizada no País em 1951, de autopeças, no aeroporto Santos Dumont (RJ) até hoje, constataremos um salto extraordinário. Porém, há uma área de inteligência nesse setor, que se perdeu no meio de todo esse desenvolvimento: a da estratégia. Para se estipular uma estratégia é necessário ter conhecimento, tanto da feira quanto do mercado. Então há falta desse tipo de profissional no setor de feiras. Ele funciona como um empreendedor, que descobre e investe em novas oportunidades de mercado e, ao mesmo tempo, analisa as situações que envolvem as feiras, evitando e contornando possíveis problemas. Isto está em falta. Devido à minha experiência nesse campo e ao ótimo relacionamento que tenho com seus diferentes públicos ando recebendo várias propostas, principalmente no momento atual, de crise econômica.

 BMF – Aos 69 anos, depois de mais de 40 anos atuando de forma direta nesse segmento e de algumas intervenções cirúrgicas, o senhor já não deveria ter se aposentado?

Evaristo – Aposentadoria é um termo complexo. Quem aposenta o corpo e a mente, acaba morrendo. Seu corpo, com a idade, sofre com alguns problemas de saúde inerentes ao tempo, o que pode limitar sua agilidade corporal.  Mas há sempre a fisioterapia para ajudar. Mas a mente, quando não afetada por um problema grave, pode e deve ser estimulada todos os dias. Posso, hoje, não ter a agilidade muscular de uns 10 anos atrás, mas minha mente está a mil, como de um adolescente. Continuo, agora com tempo de “aposentado”, mais do que nunca observando, estudando e analisando o mercado de feiras de negócios. Com isso, descubro novas oportunidades, como é o caso do projeto de feiras industriais coordenadas pela Abimaq. Alguns determinaram o fim da minha carreira, porém este bom velhinho continua movimentando este mercado com seus pitacos estratégicos. 

BMF – O mercado de feiras de negócios no Brasil atravessa um momento de transição com feiras perdendo expositores, algumas sendo canceladas e uma disputa acirrada entre as promotoras. Qual a principal notação que o senhor faz diante deste cenário?

Evaristo – A tecnologia veio para dominar todas as áreas, porém nunca devemos esquecer que por traz desse avanço tecnológico todo, ainda bate um coração. Minha principal notação neste setor é que o relacionamento, o contato humano, com seus diferentes públicos continua sendo o grande diferencial. Veja por exemplo a questão das mídias sociais. Acabou criando uma geração, uma multidão solitária. Hoje a maioria das pessoas se relaciona através delas. Por lá, você conhece a pessoa, constrói e termina o “relacionamento”. Muitas vezes, os envolvidos nem chegam a se encontrar fisicamente. Tudo fica no virtual. Com isso, anda se perdendo o contato humano e surge uma geração de pessoas frustradas, sozinhas. Na área empresarial, o vínculo humano das companhias com seus públicos não pode ser simplesmente  substituído por um aplicativo. O aplicativo é fundamental, mas o contato humano deve se manter. Hoje, há empresas que se relacionam com seus públicos pelas mídias sociais e ponto final. Há programas de vendas que o consultor não desenvolve nenhum contato direto com o cliente. E o cliente, por sua vez, sente-se frustrado. Num tipo de cultura como a nossa, a latina, do emocional, do tocar, do falar, isso torna-se um problema sério. 

BMF – O produto feira está com imagem desgastada?

Evaristo – O produto feira continua desempenhando a função de ferramenta estratégica de negócios para uma empresa. Uma das principais questões neste mercado de feiras foi a falta de investimento em infraestrutura, novos pavilhões, principalmente em sua principal praça, que é São Paulo. Com a inauguração do São Paulo Exhibitions & Convention Center, antigo Imigrantes, entraremos num novo ciclo de crescimento. 

BMF – Recente estudo apontou que os altos custos, pavilhões sucateados, marketing inadequado, desgastes no relacionamento com as promotoras são fatores que determinam a saída de expositores das feiras. Concorda com isso?

Evaristo – Concordo com tudo isso. Porém, o produto feira, quando bem elaborado e estruturado, é estratégico para o crescimento de qualquer empresa.  Podemos dizer que o mercado de feiras e eventos de negócios no Brasil viveu suas duas primeiras “ondas” e agora, estamos iniciando uma terceira, com soluções para quase todos esses problemas. A primeira onda caracterizou-se pelo pioneirismo dos projetos e seus formatos iniciais. A segunda, pela entrada no mercado das empresas estrangeiras na década de 90. Agora, a terceira, pela intenção e iniciativa das entidades em ter e administrar seus próprios eventos. Esta é a grande tendência. Com ela chegam as soluções e a facilidade de diálogo com os expositores para resolver os problemas mencionados.

BMF – Atualmente, há movimentos interessantes nesse mercado, como as feiras próprias das entidades que o senhor acabou de mencionar e projetos de eventos compactos, com conteúdo e bem direcionados. Este é o caminho?

Evaristo – Sim. No embalo da terceira onda virão, além das feiras próprias das entidades, novos formatos de eventos, alguns tendo o conteúdo como atrativo, o diferencial e com as áreas de exposições para as empresas demonstrarem seus produtos e serviços a um público altamente qualificado. Se pararmos para pensar, esta tendência foi a solução encontrada pelo setor de manter grandes marcas ligadas a esse modelo de negócio que é a feira. 

BMF – No começo dos anos 90, algumas promotoras internacionais entraram no Brasil, mas, em seguida, abandonaram o mercado. No momento, elas dominam esse setor e enfrentam dificuldades com alguns de seus grandes produtos. Há alguma estratégia equivocada que elas podem estar adotando para esse segmento?

Evaristo – O fenômeno da globalização é mundial, mas muitas empresas se esquecem que a cultura é local. Respeite a cultura local de trabalho de cada mercado e os modelos de negócios desenvolvidos por lá. Por exemplo, nós, latinos, somos um povo emocional, de muita proximidade um do outro. Isso é um fator cultural e deve ser respeitado e orientado no dia a dia das multinacionais para o desenvolvimento e criação de seus negócios no País. Umas das estratégias equivocadas é justamente essa e ocorre pelo fato de algumas empresas tentarem implantar ferramentas de trabalho criadas para outros países sem as adaptações necessárias para os clientes brasileiros, considerando o tipo de cultura existente. Saber relacionar como o mercado que você deseja conquistar é tudo. E não adianta usar um tremendo aparato tecnológico para agilizar o processo e se esquecer do fator humano. Relacionamento humano ainda é a base de tudo, inclusive de grandes negócios. 

BMF – O relacionamento entidade/promotora nesse setor está desgastado?

Evaristo – Acredito que os problemas criados por alguns modelos de gestão implantados por determinadas promotoras nos últimos anos neste mercado tenham levado a este desgaste natural. As entidades foram e continuam sendo indispensáveis para o crescimento das feiras de negócios no Brasil. Se na maioria dos outros países o formato não é assim, a culpa não é nossa. Este é um modelo vigente aqui no Brasil desde o começo e quem entrar neste segmento deve respeitar ou adaptá-lo e não querer eliminá-lo. 

BMF – Algumas das feiras de melhores resultados mercadológicos, hoje, são as que tem no comando alguma entidade de classe. O relacionamento e a proximidade com os expositores são o diferencial?

Evaristo – Com certeza. A distância que o avanço tecnológico acabou impondo entre as promotoras e seus clientes, as entidades conseguiram diminuir com estes novos modelos de negócios. Isso porque os expositores são, na verdade, em sua grande maioria seus associados. Isso acabou por estreitar ainda mais o relacionamento da realizadora do evento, a entidade, com seus clientes, os expositores, tendo como ganho maior agilidade para solucionar os seus problemas e, o mais importante, atender aos seus anseios e necessidades. 

BMF – Qual é a sensação de ver dois grandes projetos, o da  Feira da Mecânica e o da Feimec, desenvolvidos praticamente pelo senhor se digladiando no mercado?

Evaristo – Filhos a gente cria para o mundo e no caso de feiras para o mercado. São, modéstia à parte, dois grandes projetos que tive a felicidade de trabalhar. A Feira da Mecânica não foi criação minha, mas ajudei em seu desenvolvimento. Atuei nela em mais de 20 edições. Já a Feimec é um projeto desenvolvido sob medida para a Abimaq e com enorme potencial de crescimento. Infelizmente, somente uma delas continuará. Chegou a hora da renovação. Chegou a vez da Feimec. Assim como nós humanos, os produtos também possuem ciclo de duração. Φ