ENTREVISTA

UBRAFE 30 anos: Setor de feiras sem crise, mas com ajustes e adequação.

Marcelo Vital Brasil, da UBRAFE.

Marcelo Vital Brasil, da UBRAFE.

Em 2016, a União Brasileira dos Promotores de Feiras (UBRAFE) completa 30 anos. MARCELO VITAL BRASIL, presidente do conselho de administração da entidade, falou sobre as mudanças do setor nos últimos anos no País e sobre as perspectivas do mercado brasileiro, hoje altamente competitivo pois reúne as principais marcas globais do segmento e aguarda a chegada de novas. Segundo ele, o momento não é de crise no setor e, sim, de ajustes e adequação das promotoras, para que, em breve, possam retomar a agressividade mercadológica.

Por Ivaldo Gonçalves

 

BMF: Em 2016, a UBRAFE comemora 30 anos de fundação. Qual o balanço que o senhor faz desse período de atuação da entidade?

Marcelo – Ao voltar no tempo, comemorando os 30 anos de fundação da UBRAFE – União Brasileira dos Promotores de Feiras – temos que lembrar das motivações que levaram à sua criação. A entidade surgiu para unir, debater e gerar empregos por meio da formação de uma cadeia produtiva para atender o setor já demonstrava a necessidade de estabelecer suas próprias regras de atuação e conduta.

Podemos afirmar que ao longo dessas três décadas, a evolução do mercado de feiras comerciais – graças ao esforço, empreendedorismo e criatividade de seus empresários -, comprova que a associação atingiu todos os objetivos a que se propôs alcançar desde de março de 1986.

Somos um segmento da economia já consolidado que estabeleceu a sua cadeia produtiva de prestadores de serviços, pela atuação firme da UBRAFE e de seus associados, mantendo-se sempre atentos aos rumos e tendências, participando dos debates e buscando soluções conjuntas diante dos movimentos econômicos brasileiros e com grande atuação no exterior.

BMF:  A entidade surgiu numa época em que as empresas nacionais dominavam o setor. Hoje, as multinacionais imperam nele, onde travam verdadeira batalha de mercado. Como fica o papel UBRAFE diante deste novo cenário?

Marcelo – O segmento de feiras comerciais no Brasil completa 58 anos. Começou quando Caio de Alcântara Machado, sem que houvesse no país a cultura das feiras de negócios e sem ter fornecedores e prestadores de serviços para atender suas necessidades, lançou a primeira edição da FENIT – Feira Nacional da Indústria Têxtil em 1958.

Em menos de seis décadas, pela qualidade, empreendedorismo, visão e dedicação total do empresariado brasileiro – que não poupou esforços em se aprimorar continuamente, estabelecendo as gestões de alta performance, com foco na qualificação de seus colaboradores -, os eventos realizados no Brasil demonstram estar em pé de igualdade com gestões multinacionais. Por isso existe o interesse desses grupos em investirem em nosso mercado.

As principais promotoras multinacionais são nossas associadas e a UBRAFE auxilia essas companhias no desenvolvimento desse mercado perante uma concorrência leal e respeitosa. E graças a Deus que o nosso mercado hoje é competitivo. Isto eleva o grau de qualidade dos serviços e produtos oferecidos, pois as promotoras sabem se não fizerem o melhor, seu cliente irá para o concorrente. Ou seja, o expositor escolherá outra feira.

Essas multinacionais, por projeção e pesquisas, sabendo que em pouco tempo voltaremos a crescer, com um mercado de mais de 200 milhões de consumidores, continuarão a desembarcar por aqui.

BMF: E a questão da disputa acirrada no setor industrial da Reed Exibitivos Alcantara Machado e a BTS Informa, as duas principais promotoras do País?

Marcelo – Concorrência sempre existiu entre as empresas. Em alguns momentos mais acirrada e em outros menos. A UBRAFE trabalha para que as promotoras desenvolvam suas atividades comerciais dentro de uma disputa leal, respeitosa e que, com isso, possam oferecer produtos e serviços de qualidade cada vez melhores. Com isso, os públicos expositores e visitantes serão os maiores beneficiados. Uma disputa mercadológica saudável no mercado sempre beneficiará, e muito, o desenvolvimento das atividades do segmento de feiras de negócios.

BMF: Nos últimos anos houve uma alternância de presidentes das principais promotoras na diretoria da entidade. Os interesses particulares dessas empresas não acabaram prevalecendo?

Marcelo – A alternância na presidência é a melhor forma de se estabelecer o bom convívio. Pelos nossos estatutos só se pode concorrer a dois mandatos seguidos. A associação tem seu conselho de administração formado por vice-presidentes, que representam várias outras promotoras.

Os interesses do mercado comum é o que prevalece e nunca o interesse único de uma promotora. A palavra final será sempre dada pelo conselho de administração da entidade. Somo uma entidade que representa e luta pelos interesses de um setor, por isso prevalece sempre o consenso.

BMF: Nos últimos anos, ocorreu um aumento significativo no número de feiras de negócios nos calendários.  O que leva à falsa impressão que o setor está em franco crescimento. O que não é verdade, pois a maioria dessas feiras não passam da segunda edição. Ao mesmo tempo, muitos eventos consolidados começaram a enfrentar problemas. Como analisa a atual situação desse mercado?

Marcelo – Em qualquer segmento econômico, não só na atividade promocional de feiras, existe o surgimento de novos empreendimentos e o fechamento de 27% ainda no primeiro ano e cerca de 50% não atingem o terceiro ano de atividades.

A maioria dessas empresas não conseguiu continuar a sua atividade por comportamento empreendedor pouco desenvolvido, falta de planejamento e gestão deficiente do negócio. Claro que existe o efeito positivo ou negativo da conjuntura econômica que se o empreendedor não souber o momento de avançar, ou aguardar, alterando seu planejamento, com certeza terá problemas. Aquele que é o chamado aventureiro e imagina que para realizar feira de negócios basta sonhar a noite e no dia seguinte lançar o evento, vai se frustrar. Feira é um negócio complexo e requer conhecimento, força de vontade, dedicação, renúncia a vida pessoal e firmeza de propósitos.

Trabalho há 48 anos na organização e planejamento de feiras. Já vi de tudo, já passamos por todo tipo de situação de mercado, os momentos de grande expansão e crescimentos maravilhosos, como de momentos mais difíceis. Quem não se lembra dos tempos de inflação gigante que pela manhã se praticava um valor e a tarde já era necessário negociar por outro? Já comercializamos o m2 em dólar, URV, UPC, Cruzado, Cruzeiro Novo, e em diferentes planos econômicos: Funaro, Bresser e Collor e por aí vai. Sempre saímos destas situações mais fortes e consolidados.

Atualmente em função do momento vivido em nossa economia, as promotoras realizam ajustes e algumas adequações mercadológicas. Mas diante dessas dificuldades não vimos nenhuma promotora fechar ou sair do mercado. Pelo contrário, todas estão fazendo mudanças e acertos em suas rotas. E isso se chama gestão, onde se prepara a empresa para os anos seguintes. Os verdadeiros empresários promotores de feiras sabem os momentos certos para alavancarem seus negócios.

BMF:  O senhor não acha que falta um trabalho conjunto e mais agressivo das promotoras, coordenado pela UBRAFE, para reforçar a imagem de marca das feiras?

Marcelo – Esse trabalho já vem sendo realizado e nestes 30 anos muito já melhorou e se modernizou. As feiras sempre foram e continuarão sendo ótimas ferramentas de marketing para as empresas. Além desse trabalho de sustentação e valorização do produto feira, que é um dos nossos objetivos também, temos procurado investir e muito na qualificação profissional desse setor, para que possam melhorar a qualidade dos produtos e serviços oferecidos ao mercado.

BMF: Por muito tempo os expositores sofreram com a falta de infraestrutura nos pavilhões no País. Agora, com a inauguração do São Paulo Expo, a maioria começou a se movimentar, principalmente em São Paulo. Quais eram as dificuldades da entidade em tentar solucionar esses problemas dos pavilhões, principalmente no caso do Anhembi?

Marcelo –  O problema era a questão de gestão política. Infelizmente, não dependia somente de nossa vontade. O que estavam ao nosso alcance e das promotoras, fizemos. Ao longo desses anos, sempre pressionamos a prefeitura para a modernização do Anhembi. Mas a coisa começava a fluir, e, de repente, mudava a gestão. Daí tínhamos de começar tudo de novo. Tanto é que muitas reformas no pavilhão foram feitas pelas próprias promotoras que não aguentaram esperar todo o processo político. A gestão municipal empenhava muita coisa. Agora com a inauguração do São Paulo Expo, ligado à administração estadual, o Anhembi, da prefeitura, começou a se movimentar para não perder clientes e espaço.

Nossa atuação junto aos pavilhões tem sido permanente. Estamos em vias de receber um pavilhão moderno e com facilidades consagradas em outros países, o São Paulo Expo. Além disso, o Expo Center Norte, vem se modernizando e trazendo mais conforto para promotores e expositores. Há pouco tempo, por exemplo, tivemos no local a inauguração da área de restaurantes nos mezaninos durante a Couromoda 2016. Temos o Centro de Convenções Frei Caneca, o Centro de Convenções Rebouças, o Transamérica Expo Center entre outros que oferecem excelentes instalações e facilidades para seus usuários.

BMF: A crise econômica, o crescimento do grau de apreensão das empresas em participar em feiras não pode ocasionar uma oferta maior de espaço do que a demanda?

Marcelo – Com certeza isso é uma perspectiva natural a ser analisada, mas, por exemplo, São Paulo como a maior cidade brasileira e a capital econômica do país, tem a capacidade de se refazer a cada desafio.

Acontecendo a oferta maior que a demanda, como regra econômica a tendência será um maior campo para negociação. Mas temos conversado com muitas promotoras, sejam nacionais ou multinacionais, que tem em seu planejamento o lançamento de novas feiras obedecendo a tendência mundial, ou seja, feiras mais segmentadas, com nichos definidos, menores em tamanho, com custos baixos de organização e principalmente na montagem dos estandes, com no máximo 100 a 120 expositores.

Feiras nesse formato são mais amigáveis quanto aos controles de custos e o público visitante será tanto quanto as feiras maiores no fator de maior qualificação.

BMF: Os eventos regionais, principalmente os da região Sul, têm sido os grandes destaques deste mercado. Como a entidade acompanha o desenvolvimento dessas novas praças com o crescimento de empresas que não são suas associadas?

Marcelo – Essas realizações obedecem a especificidades de cada região do Brasil e seria natural o surgimento destas feiras, podemos falar de eventos realizados com qualidade. Um exemplo é o mercado do Sul, onde despontam importantes feiras, assim como no Nordeste. Somos um país de dimensões geográficas muito grandes. Há uma diversificação de centros industriais espalhados pelo Brasil. E é natural que, como o tempo, hajam investimentos em feiras de negócios para melhor expor e apresentar o desenvolvimento das empresas e indústria local. A UBRAFE acompanha e vê com bons olhos este crescimento. E o fato dessas promotoras que atuam nos polos regionais não serem associadas à UBRAFE, é uma questão de tempo e oportunidade.

BMF: Há um projeto da UBRAFE que visa a descentralização de São Paulo justamente para abranger essas empresas em outras regiões? Quais suas principais diretrizes?

Marcelo – A UBRAFE não pensa em um projeto de descentralização, antes pensamos em buscar novos parceiros para o negócio de feiras. São Paulo é e sempre será, pelo menos ainda por muitos anos, a capital dos negócios no Brasil.

Isso não quer dizer que polos industriais fortíssimos como temos na região Sul e em alguns estados do Nordeste não estejam em franca e vitoriosa atuação na realização de feiras de negócios, cada um deles obedecendo a suas características predominantes.

Somos um país com dimensões continentais, com poucos investimentos federais em infraestrutura o que dificulta e encarece deslocamentos da maioria dos visitantes de outros estados para São Paulo, por este motivo as feiras regionais irão crescer e se desenvolver a contento. Mas estas mesmas empresas que participam dos eventos regionais necessitarão participar dos eventos em São Paulo para manter negócios com seus clientes e prospectar novos na Região Sudeste.

BMF: Um dos principais investimentos da entidade tem sido a busca de maior qualificação dos profissionais que atuam na área. Tem alguma novidade nesse campo?

Marcelo – A UBRAFE sempre buscou oferecer e indicar cursos profissionalizantes e de aperfeiçoamento para os funcionários de seus associados. Entendemos que somente através da qualificação da mão de obra, em todos os segmentos de uma empresa é que se poderá prestar o melhor serviço e entregar o prometido ao cliente.

Em parceria com o SINDIPROM – Sindicato das Empresas Promotoras, Organizadoras e de Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Est. De São Paulo, temos realizado vários convênios e oferecido concorridos cursos de certificação a exemplo das Normas Técnicas inerentes a nossa atividade como as de trabalho em altura e a do uso de EPI equipamento de segurança e proteção individual, ou ainda os cursos para certificação internacional em feiras e eventos, o CEM – Certified Exhibitions Management, em convênio com a New Events Global, da Europa.

Para 2016 consta de nossa programação a oferta de novas edições desses cursos e o acréscimo de outros.

BMF: Quais as expectativas da entidade com relação ao mercado em 2016?

Marcelo – Estamos com excelentes perspectivas, sabemos com certeza que tudo é questão de um bom planejamento e uma perfeita análise da situação, sabendo a hora certa de ajustar e a hora certa de expandir. Estamos no momento de ajustes no setor. Com certeza há lançamentos, mas com produtos (feiras) adequados ao tamanho e à realidade do mercado atual.

Atravessamos um momento econômico não favorável às atividades industriais, que enfrentam dificuldades. Mesmo assim, os expositores não deixam de participar dos eventos. Tanto é que a taxa de não renovação no setor é uma das mais baixas dos últimos anos, de apenas 12%. As empresas podem diminuir área, mas não deixam de participar.

Por essa razão e pela grandiosidade do mercado de feiras, as promotoras internacionais continuam investindo por aqui e acreditando na rápida recuperação do mercado e a volta do bom humor e da confiança do empresariado nacional.

Prova disso é que nos próximos anos novas promotoras estrangeiras desembarcarão no Brasil, entre elas, italianas, espanholas, alemãs e inglesas. O futuro do mercado brasileiro de feiras só existe um caminho: o do crescimento.

 

 

ESPECIAL MERCADO

O SOBE e DESCE no mercado brasileiro de feiras e eventos em 2015.

2015

O que subiu e desceu no ano que passou no setor  de feiras e eventos.

2015 foi um ano complicado para o setor de feiras e eventos de negócios. O mercado, que já vinha sofrendo com uma certa apreensão de investimentos em feiras pelas empresas (influenciados pelos altos custos, falta de infraestrutura de pavilhões e marketing inadequado), deparou com o agravamento da crise econômica do País, principalmente em setores considerados lucrativos: como o automotivo, construção e indústria. Mesmo com esses entraves, o ano foi movimentado. Diante disso, apresentamos o que ficou em alta e em baixa no setor brasileiro. Confira:

SEGMENTO DE MERCADO
subiu30Games

desceu30Automotivo

Enquanto as feiras de games transformaram-se nas grandes atrações de 2015, com filas de visitantes e muito espaço na mídia, o automotivo sofreu um baque com a crise do País. Com isso, grandes feiras como a Fenatran por pouco não aconteceram. A expectativa maior agora é com relação ao Salão do Automóvel em 2016, que, assim como a Brasil Game Show, se transferiu para o novo pavilhão São Paulo Expo (antigo Imigrantes).

PROMOTORA
subiu30 UBM

desceu30 Clarion

Em meio à guerra de gigantes (Reed Exhibitios Alcantara Machado e BTS Informa) pela liderança do mercado, a UBM roubou a cena e adquiriu a Feira+Fórum Hospitalar. Um sólido produto, com forte imagem de marca e que deu um novo impulso aos negócios da companhia no Brasil. Por outro lado, a Clarion Events entrou e saiu 2015 como uma incógnita – mais um ano que isso acontece – sem deixar claro seus planos e investimentos para o Brasil.

PROFISSIONAL
subiu30 Maria Antônia S. Ferreira

desceu30 Marco Antônio Mastrandonakis

Após comercializar as feiras ExpoCarne e ExpoAgro para a BTS Informa, Maria Antônia S. Ferreira ficou no freezer por algum tempo. Saiu em 2015, criou a Enterprise Feiras & Eventos e retornou com força total ao ramo com o lançamento da MercoAgro e ExpoMeat, voltadas à indústria frigorífica. Já Marco Antônio Mastrandonakis, profissional experiente com mais de 25 anos dedicados ao setor, ficou pouco mais de um ano no cargo de diretor geral da Cipa Fiera Milano no País.

FEIRA
subiu30HOSPITALAR

desceu30ADVENTURE SPORTS FAIR

Após várias tentativas de compra de promotoras internacionais, Francisco Santos e Waleska Santos, presidentes do Grupo São Paulo Feiras (Couromoda), conseguiram valorizar ainda mais a Feira+Fórum Hospitalar e a comercializou no momento certo para a britânica UBM. Já a Adventure Sports Fair, da área de turismo de aventura, sofreu com crise e foi cancelada. Isso num momento em que a demanda por esse tipo de serviço cresce entre 15% e 25% a cada ano, de acordo com dados da Organização Mundial do Turismo (OMT). A Promotrade, sua organizadora, promete uma versão reestruturada para 2016.

ENTIDADE
subiu30 Abimaq

desceu30 Abiplast

O Projeto Feiras Industriais, iniciativa da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – movimentou o setor de feiras em 2015. Com ele, três novos produtos foram lançados (Feimec, Expomafe e Plástico Brasil) e em um novo pavilhão: São Paulo Expo. Já a ABIPLAST – Associação Brasileira da Indústria do Plástico – tem demonstrado pouco fôlego após os problemas com a marca Brasilplast, fusões e compras de empresas no setor, e lançamento de novas feiras no ramo do plástico, coordenadas por outras entidades.

EXPOSITORES
subiu30 chineses

desceu30 latino-americanos

Parece que a ordem de 2015 na maioria das feiras brasileiras foi: há espaço vazio, chama os chineses. E, como sempre, eles vieram com muita garra e fome (a maioria come no próprio estande atendendo aos clientes). As feiras brasileiras sofreram uma invasão de chineses. Já os nossos vizinhos latino-americanos praticamente desapareceram dos eventos nacionais.

CENTRO DE EXPOSIÇÕES
subiu30São Paulo Expo

desceu30 Anhembi

O lançamento do novo pavilhão São Paulo Expo (antigo Imigrantes), administrado pela francesa GL Events, injetou novo ânimo (e investimentos da ordem de R$ 300 milhões) no mercado brasileiro de feiras. As grandes feiras do País aderiram ao projeto e deixaram o tradicional, mas velho Anhembi. Isso fez com que os outros centros de exposições, principalmente em São Paulo, se movimentassem para não perder clientes. Inclusive o Anhembi, que correu e abriu licitação para reformas.

REGIÃO
subiu30Região Sul

desceu30Região Nordeste

Em silêncio, o mercado do Sul virou a bola da vez no setor de feiras e eventos regionais. Com o apoio de sindicatos e entidades locais, suas feiras crescem em número de expositores e visitantes. Algumas, inclusive, já começam a incomodar eventos tradicionais da principal praça São Paulo. Já a região Nordeste, anunciada como uma grande vedete econômica, embora tenha investido em novos centros, como o de Fortaleza e Natal, vem demonstrando dificuldade para atrair grandes eventos. Promotoras como a Reed Exibitions, São Paulo Feiras (Couromoda) e Francal, suspenderam investimentos na região.

FEIRA REGIONAL
subiu30Zero Grau

desceu30 Ficcan

Em sua quinta edição, a feira Zero Grau caiu no gosto dos expositores e visitantes do setor de calçados e acessórios. Realizada em Gramado, contou com 300 expositores e mais de 900 marcas e mostrou que está na data e local (próximo dos principais fabricantes) que o mercado precisa. Já a Ficcan – Feira Internacional de Calçados e Artefatos Norte e Nordeste ficou literalmente pelo caminho e foi cancelada. O projeto, que já tinha sido adiado de 2014 para 2015, era um evento conjunto da Couromoda e Francal e aconteceria no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza.

AÇÃO DE MARKETING / PROMOÇÃO EXPOSITOR
subiu30Assessoria de Imprensa

desceu30 Viagens Promocionais

Infelizmente no Brasil poucas são as empresas que sabem fazer uso da ferramenta assessoria de imprensa no composto de marketing para alavancar negócios. O mercado de feiras está acordando para isso. E muito se deve aos esforços de profissionais que há anos batalham neste setor como Luiz Carlos Franco, da Primeira Página, e Myrian Vallone, da 2 Pró Comunicação. Na contramão, devido aos cortes de verbas do marketing, as viagens para promoção das feiras tornaram-se cada vez mais escassas nos planos de divulgação dos eventos.

AÇÃO DE MARKETING / PROMOÇÃO VISITANTES
subiu30Credencial

desceu30 Convite Impresso

A Reed Exhibitions Alcantara Machado mostrou porque é, ainda, a número 1 do mercado. Lançou um modelo de credencial que o visitante imprime, por completo, em questões de segundo e somente precisa pegar na entrada da feira o suporte para inseri-la. Nota 10 em agilidade e comodidade para o público. Já os convites impressos das feiras, antes encartados em revistas e distribuídos para os expositores enviarem aos seus clientes, encalharam-se, transformando em custos para as empresas e publicações.

MÍDIA
subiu30 Mídias Sociais

desceu30 Revistas Impressas

No segmento feiras de negócios as mídias sociais desempenham papel cada vez mais importante no composto de marketing. Porém, faltam habilidades profissionais à maioria das empresas em trabalhá-las nas etapas promoção expositor e promoção visitantes. Em 2015, elas conquistaram espaços de destaques no composto promocional das feiras. Já as revistas impressas mostraram dificuldades em adaptar à esta nova realidade do marketing digital. Algumas delas nem mídias sociais possuem e, quando têm, ficam praticamente paradas.

O Dono do Jogo

Proprietário e diretor geral da Nascimento Feiras e Eventos de Negócios, com mais de 40 anos de atuação no setor. www.nascimentofeiras.com.br

O embate atual entre as duas principais promotoras de feiras no mercado brasileiro tem um estrategista: Evaristo Nascimento. Depois de Caio de Alcantara Machado, que inaugurou e impulsionou o segmento no País, ele é o profissional que influenciou alguns dos principais movimentos desse mercado nos últimos tempos, seja na direção de grandes eventos ou, agora, como consultor. Seu último grande lance foi a idealização do projeto de feiras industriais, uma iniciativa da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.

 BMF – Neste tabuleiro de xadrez que se transformou o mercado de feiras, uma peça importante anda em falta, a do profissional empreendedor que desenvolve novos projetos, analisa e conhece esse mercado. Por isso que o senhor continua na ativa e recebendo propostas de empresas?

Evaristo – O mercado de feiras e eventos de negócios se desenvolveu muito nos últimos anos, principalmente nas áreas de promoção do expositor e do visitante. Novas ferramentas foram introduzidas e tornaram os processos mais dinâmicos e seguros com o aparato tecnológico introduzido pelas multinacionais. Se observarmos desde a primeira feira realizada no País em 1951, de autopeças, no aeroporto Santos Dumont (RJ) até hoje, constataremos um salto extraordinário. Porém, há uma área de inteligência nesse setor, que se perdeu no meio de todo esse desenvolvimento: a da estratégia. Para se estipular uma estratégia é necessário ter conhecimento, tanto da feira quanto do mercado. Então há falta desse tipo de profissional no setor de feiras. Ele funciona como um empreendedor, que descobre e investe em novas oportunidades de mercado e, ao mesmo tempo, analisa as situações que envolvem as feiras, evitando e contornando possíveis problemas. Isto está em falta. Devido à minha experiência nesse campo e ao ótimo relacionamento que tenho com seus diferentes públicos ando recebendo várias propostas, principalmente no momento atual, de crise econômica.

 BMF – Aos 69 anos, depois de mais de 40 anos atuando de forma direta nesse segmento e de algumas intervenções cirúrgicas, o senhor já não deveria ter se aposentado?

Evaristo – Aposentadoria é um termo complexo. Quem aposenta o corpo e a mente, acaba morrendo. Seu corpo, com a idade, sofre com alguns problemas de saúde inerentes ao tempo, o que pode limitar sua agilidade corporal.  Mas há sempre a fisioterapia para ajudar. Mas a mente, quando não afetada por um problema grave, pode e deve ser estimulada todos os dias. Posso, hoje, não ter a agilidade muscular de uns 10 anos atrás, mas minha mente está a mil, como de um adolescente. Continuo, agora com tempo de “aposentado”, mais do que nunca observando, estudando e analisando o mercado de feiras de negócios. Com isso, descubro novas oportunidades, como é o caso do projeto de feiras industriais coordenadas pela Abimaq. Alguns determinaram o fim da minha carreira, porém este bom velhinho continua movimentando este mercado com seus pitacos estratégicos. 

BMF – O mercado de feiras de negócios no Brasil atravessa um momento de transição com feiras perdendo expositores, algumas sendo canceladas e uma disputa acirrada entre as promotoras. Qual a principal notação que o senhor faz diante deste cenário?

Evaristo – A tecnologia veio para dominar todas as áreas, porém nunca devemos esquecer que por traz desse avanço tecnológico todo, ainda bate um coração. Minha principal notação neste setor é que o relacionamento, o contato humano, com seus diferentes públicos continua sendo o grande diferencial. Veja por exemplo a questão das mídias sociais. Acabou criando uma geração, uma multidão solitária. Hoje a maioria das pessoas se relaciona através delas. Por lá, você conhece a pessoa, constrói e termina o “relacionamento”. Muitas vezes, os envolvidos nem chegam a se encontrar fisicamente. Tudo fica no virtual. Com isso, anda se perdendo o contato humano e surge uma geração de pessoas frustradas, sozinhas. Na área empresarial, o vínculo humano das companhias com seus públicos não pode ser simplesmente  substituído por um aplicativo. O aplicativo é fundamental, mas o contato humano deve se manter. Hoje, há empresas que se relacionam com seus públicos pelas mídias sociais e ponto final. Há programas de vendas que o consultor não desenvolve nenhum contato direto com o cliente. E o cliente, por sua vez, sente-se frustrado. Num tipo de cultura como a nossa, a latina, do emocional, do tocar, do falar, isso torna-se um problema sério. 

BMF – O produto feira está com imagem desgastada?

Evaristo – O produto feira continua desempenhando a função de ferramenta estratégica de negócios para uma empresa. Uma das principais questões neste mercado de feiras foi a falta de investimento em infraestrutura, novos pavilhões, principalmente em sua principal praça, que é São Paulo. Com a inauguração do São Paulo Exhibitions & Convention Center, antigo Imigrantes, entraremos num novo ciclo de crescimento. 

BMF – Recente estudo apontou que os altos custos, pavilhões sucateados, marketing inadequado, desgastes no relacionamento com as promotoras são fatores que determinam a saída de expositores das feiras. Concorda com isso?

Evaristo – Concordo com tudo isso. Porém, o produto feira, quando bem elaborado e estruturado, é estratégico para o crescimento de qualquer empresa.  Podemos dizer que o mercado de feiras e eventos de negócios no Brasil viveu suas duas primeiras “ondas” e agora, estamos iniciando uma terceira, com soluções para quase todos esses problemas. A primeira onda caracterizou-se pelo pioneirismo dos projetos e seus formatos iniciais. A segunda, pela entrada no mercado das empresas estrangeiras na década de 90. Agora, a terceira, pela intenção e iniciativa das entidades em ter e administrar seus próprios eventos. Esta é a grande tendência. Com ela chegam as soluções e a facilidade de diálogo com os expositores para resolver os problemas mencionados.

BMF – Atualmente, há movimentos interessantes nesse mercado, como as feiras próprias das entidades que o senhor acabou de mencionar e projetos de eventos compactos, com conteúdo e bem direcionados. Este é o caminho?

Evaristo – Sim. No embalo da terceira onda virão, além das feiras próprias das entidades, novos formatos de eventos, alguns tendo o conteúdo como atrativo, o diferencial e com as áreas de exposições para as empresas demonstrarem seus produtos e serviços a um público altamente qualificado. Se pararmos para pensar, esta tendência foi a solução encontrada pelo setor de manter grandes marcas ligadas a esse modelo de negócio que é a feira. 

BMF – No começo dos anos 90, algumas promotoras internacionais entraram no Brasil, mas, em seguida, abandonaram o mercado. No momento, elas dominam esse setor e enfrentam dificuldades com alguns de seus grandes produtos. Há alguma estratégia equivocada que elas podem estar adotando para esse segmento?

Evaristo – O fenômeno da globalização é mundial, mas muitas empresas se esquecem que a cultura é local. Respeite a cultura local de trabalho de cada mercado e os modelos de negócios desenvolvidos por lá. Por exemplo, nós, latinos, somos um povo emocional, de muita proximidade um do outro. Isso é um fator cultural e deve ser respeitado e orientado no dia a dia das multinacionais para o desenvolvimento e criação de seus negócios no País. Umas das estratégias equivocadas é justamente essa e ocorre pelo fato de algumas empresas tentarem implantar ferramentas de trabalho criadas para outros países sem as adaptações necessárias para os clientes brasileiros, considerando o tipo de cultura existente. Saber relacionar como o mercado que você deseja conquistar é tudo. E não adianta usar um tremendo aparato tecnológico para agilizar o processo e se esquecer do fator humano. Relacionamento humano ainda é a base de tudo, inclusive de grandes negócios. 

BMF – O relacionamento entidade/promotora nesse setor está desgastado?

Evaristo – Acredito que os problemas criados por alguns modelos de gestão implantados por determinadas promotoras nos últimos anos neste mercado tenham levado a este desgaste natural. As entidades foram e continuam sendo indispensáveis para o crescimento das feiras de negócios no Brasil. Se na maioria dos outros países o formato não é assim, a culpa não é nossa. Este é um modelo vigente aqui no Brasil desde o começo e quem entrar neste segmento deve respeitar ou adaptá-lo e não querer eliminá-lo. 

BMF – Algumas das feiras de melhores resultados mercadológicos, hoje, são as que tem no comando alguma entidade de classe. O relacionamento e a proximidade com os expositores são o diferencial?

Evaristo – Com certeza. A distância que o avanço tecnológico acabou impondo entre as promotoras e seus clientes, as entidades conseguiram diminuir com estes novos modelos de negócios. Isso porque os expositores são, na verdade, em sua grande maioria seus associados. Isso acabou por estreitar ainda mais o relacionamento da realizadora do evento, a entidade, com seus clientes, os expositores, tendo como ganho maior agilidade para solucionar os seus problemas e, o mais importante, atender aos seus anseios e necessidades. 

BMF – Qual é a sensação de ver dois grandes projetos, o da  Feira da Mecânica e o da Feimec, desenvolvidos praticamente pelo senhor se digladiando no mercado?

Evaristo – Filhos a gente cria para o mundo e no caso de feiras para o mercado. São, modéstia à parte, dois grandes projetos que tive a felicidade de trabalhar. A Feira da Mecânica não foi criação minha, mas ajudei em seu desenvolvimento. Atuei nela em mais de 20 edições. Já a Feimec é um projeto desenvolvido sob medida para a Abimaq e com enorme potencial de crescimento. Infelizmente, somente uma delas continuará. Chegou a hora da renovação. Chegou a vez da Feimec. Assim como nós humanos, os produtos também possuem ciclo de duração. Φ