O Dono do Jogo

Proprietário e diretor geral da Nascimento Feiras e Eventos de Negócios, com mais de 40 anos de atuação no setor. www.nascimentofeiras.com.br

O embate atual entre as duas principais promotoras de feiras no mercado brasileiro tem um estrategista: Evaristo Nascimento. Depois de Caio de Alcantara Machado, que inaugurou e impulsionou o segmento no País, ele é o profissional que influenciou alguns dos principais movimentos desse mercado nos últimos tempos, seja na direção de grandes eventos ou, agora, como consultor. Seu último grande lance foi a idealização do projeto de feiras industriais, uma iniciativa da ABIMAQ – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos.

 BMF – Neste tabuleiro de xadrez que se transformou o mercado de feiras, uma peça importante anda em falta, a do profissional empreendedor que desenvolve novos projetos, analisa e conhece esse mercado. Por isso que o senhor continua na ativa e recebendo propostas de empresas?

Evaristo – O mercado de feiras e eventos de negócios se desenvolveu muito nos últimos anos, principalmente nas áreas de promoção do expositor e do visitante. Novas ferramentas foram introduzidas e tornaram os processos mais dinâmicos e seguros com o aparato tecnológico introduzido pelas multinacionais. Se observarmos desde a primeira feira realizada no País em 1951, de autopeças, no aeroporto Santos Dumont (RJ) até hoje, constataremos um salto extraordinário. Porém, há uma área de inteligência nesse setor, que se perdeu no meio de todo esse desenvolvimento: a da estratégia. Para se estipular uma estratégia é necessário ter conhecimento, tanto da feira quanto do mercado. Então há falta desse tipo de profissional no setor de feiras. Ele funciona como um empreendedor, que descobre e investe em novas oportunidades de mercado e, ao mesmo tempo, analisa as situações que envolvem as feiras, evitando e contornando possíveis problemas. Isto está em falta. Devido à minha experiência nesse campo e ao ótimo relacionamento que tenho com seus diferentes públicos ando recebendo várias propostas, principalmente no momento atual, de crise econômica.

 BMF – Aos 69 anos, depois de mais de 40 anos atuando de forma direta nesse segmento e de algumas intervenções cirúrgicas, o senhor já não deveria ter se aposentado?

Evaristo – Aposentadoria é um termo complexo. Quem aposenta o corpo e a mente, acaba morrendo. Seu corpo, com a idade, sofre com alguns problemas de saúde inerentes ao tempo, o que pode limitar sua agilidade corporal.  Mas há sempre a fisioterapia para ajudar. Mas a mente, quando não afetada por um problema grave, pode e deve ser estimulada todos os dias. Posso, hoje, não ter a agilidade muscular de uns 10 anos atrás, mas minha mente está a mil, como de um adolescente. Continuo, agora com tempo de “aposentado”, mais do que nunca observando, estudando e analisando o mercado de feiras de negócios. Com isso, descubro novas oportunidades, como é o caso do projeto de feiras industriais coordenadas pela Abimaq. Alguns determinaram o fim da minha carreira, porém este bom velhinho continua movimentando este mercado com seus pitacos estratégicos. 

BMF – O mercado de feiras de negócios no Brasil atravessa um momento de transição com feiras perdendo expositores, algumas sendo canceladas e uma disputa acirrada entre as promotoras. Qual a principal notação que o senhor faz diante deste cenário?

Evaristo – A tecnologia veio para dominar todas as áreas, porém nunca devemos esquecer que por traz desse avanço tecnológico todo, ainda bate um coração. Minha principal notação neste setor é que o relacionamento, o contato humano, com seus diferentes públicos continua sendo o grande diferencial. Veja por exemplo a questão das mídias sociais. Acabou criando uma geração, uma multidão solitária. Hoje a maioria das pessoas se relaciona através delas. Por lá, você conhece a pessoa, constrói e termina o “relacionamento”. Muitas vezes, os envolvidos nem chegam a se encontrar fisicamente. Tudo fica no virtual. Com isso, anda se perdendo o contato humano e surge uma geração de pessoas frustradas, sozinhas. Na área empresarial, o vínculo humano das companhias com seus públicos não pode ser simplesmente  substituído por um aplicativo. O aplicativo é fundamental, mas o contato humano deve se manter. Hoje, há empresas que se relacionam com seus públicos pelas mídias sociais e ponto final. Há programas de vendas que o consultor não desenvolve nenhum contato direto com o cliente. E o cliente, por sua vez, sente-se frustrado. Num tipo de cultura como a nossa, a latina, do emocional, do tocar, do falar, isso torna-se um problema sério. 

BMF – O produto feira está com imagem desgastada?

Evaristo – O produto feira continua desempenhando a função de ferramenta estratégica de negócios para uma empresa. Uma das principais questões neste mercado de feiras foi a falta de investimento em infraestrutura, novos pavilhões, principalmente em sua principal praça, que é São Paulo. Com a inauguração do São Paulo Exhibitions & Convention Center, antigo Imigrantes, entraremos num novo ciclo de crescimento. 

BMF – Recente estudo apontou que os altos custos, pavilhões sucateados, marketing inadequado, desgastes no relacionamento com as promotoras são fatores que determinam a saída de expositores das feiras. Concorda com isso?

Evaristo – Concordo com tudo isso. Porém, o produto feira, quando bem elaborado e estruturado, é estratégico para o crescimento de qualquer empresa.  Podemos dizer que o mercado de feiras e eventos de negócios no Brasil viveu suas duas primeiras “ondas” e agora, estamos iniciando uma terceira, com soluções para quase todos esses problemas. A primeira onda caracterizou-se pelo pioneirismo dos projetos e seus formatos iniciais. A segunda, pela entrada no mercado das empresas estrangeiras na década de 90. Agora, a terceira, pela intenção e iniciativa das entidades em ter e administrar seus próprios eventos. Esta é a grande tendência. Com ela chegam as soluções e a facilidade de diálogo com os expositores para resolver os problemas mencionados.

BMF – Atualmente, há movimentos interessantes nesse mercado, como as feiras próprias das entidades que o senhor acabou de mencionar e projetos de eventos compactos, com conteúdo e bem direcionados. Este é o caminho?

Evaristo – Sim. No embalo da terceira onda virão, além das feiras próprias das entidades, novos formatos de eventos, alguns tendo o conteúdo como atrativo, o diferencial e com as áreas de exposições para as empresas demonstrarem seus produtos e serviços a um público altamente qualificado. Se pararmos para pensar, esta tendência foi a solução encontrada pelo setor de manter grandes marcas ligadas a esse modelo de negócio que é a feira. 

BMF – No começo dos anos 90, algumas promotoras internacionais entraram no Brasil, mas, em seguida, abandonaram o mercado. No momento, elas dominam esse setor e enfrentam dificuldades com alguns de seus grandes produtos. Há alguma estratégia equivocada que elas podem estar adotando para esse segmento?

Evaristo – O fenômeno da globalização é mundial, mas muitas empresas se esquecem que a cultura é local. Respeite a cultura local de trabalho de cada mercado e os modelos de negócios desenvolvidos por lá. Por exemplo, nós, latinos, somos um povo emocional, de muita proximidade um do outro. Isso é um fator cultural e deve ser respeitado e orientado no dia a dia das multinacionais para o desenvolvimento e criação de seus negócios no País. Umas das estratégias equivocadas é justamente essa e ocorre pelo fato de algumas empresas tentarem implantar ferramentas de trabalho criadas para outros países sem as adaptações necessárias para os clientes brasileiros, considerando o tipo de cultura existente. Saber relacionar como o mercado que você deseja conquistar é tudo. E não adianta usar um tremendo aparato tecnológico para agilizar o processo e se esquecer do fator humano. Relacionamento humano ainda é a base de tudo, inclusive de grandes negócios. 

BMF – O relacionamento entidade/promotora nesse setor está desgastado?

Evaristo – Acredito que os problemas criados por alguns modelos de gestão implantados por determinadas promotoras nos últimos anos neste mercado tenham levado a este desgaste natural. As entidades foram e continuam sendo indispensáveis para o crescimento das feiras de negócios no Brasil. Se na maioria dos outros países o formato não é assim, a culpa não é nossa. Este é um modelo vigente aqui no Brasil desde o começo e quem entrar neste segmento deve respeitar ou adaptá-lo e não querer eliminá-lo. 

BMF – Algumas das feiras de melhores resultados mercadológicos, hoje, são as que tem no comando alguma entidade de classe. O relacionamento e a proximidade com os expositores são o diferencial?

Evaristo – Com certeza. A distância que o avanço tecnológico acabou impondo entre as promotoras e seus clientes, as entidades conseguiram diminuir com estes novos modelos de negócios. Isso porque os expositores são, na verdade, em sua grande maioria seus associados. Isso acabou por estreitar ainda mais o relacionamento da realizadora do evento, a entidade, com seus clientes, os expositores, tendo como ganho maior agilidade para solucionar os seus problemas e, o mais importante, atender aos seus anseios e necessidades. 

BMF – Qual é a sensação de ver dois grandes projetos, o da  Feira da Mecânica e o da Feimec, desenvolvidos praticamente pelo senhor se digladiando no mercado?

Evaristo – Filhos a gente cria para o mundo e no caso de feiras para o mercado. São, modéstia à parte, dois grandes projetos que tive a felicidade de trabalhar. A Feira da Mecânica não foi criação minha, mas ajudei em seu desenvolvimento. Atuei nela em mais de 20 edições. Já a Feimec é um projeto desenvolvido sob medida para a Abimaq e com enorme potencial de crescimento. Infelizmente, somente uma delas continuará. Chegou a hora da renovação. Chegou a vez da Feimec. Assim como nós humanos, os produtos também possuem ciclo de duração. Φ