UBRAFE 30 anos: Setor de feiras sem crise, mas com ajustes e adequação.

Marcelo Vital Brasil, da UBRAFE.

Marcelo Vital Brasil, da UBRAFE.

Em 2016, a União Brasileira dos Promotores de Feiras (UBRAFE) completa 30 anos. MARCELO VITAL BRASIL, presidente do conselho de administração da entidade, falou sobre as mudanças do setor nos últimos anos no País e sobre as perspectivas do mercado brasileiro, hoje altamente competitivo pois reúne as principais marcas globais do segmento e aguarda a chegada de novas. Segundo ele, o momento não é de crise no setor e, sim, de ajustes e adequação das promotoras, para que, em breve, possam retomar a agressividade mercadológica.

Por Ivaldo Gonçalves

 

BMF: Em 2016, a UBRAFE comemora 30 anos de fundação. Qual o balanço que o senhor faz desse período de atuação da entidade?

Marcelo – Ao voltar no tempo, comemorando os 30 anos de fundação da UBRAFE – União Brasileira dos Promotores de Feiras – temos que lembrar das motivações que levaram à sua criação. A entidade surgiu para unir, debater e gerar empregos por meio da formação de uma cadeia produtiva para atender o setor já demonstrava a necessidade de estabelecer suas próprias regras de atuação e conduta.

Podemos afirmar que ao longo dessas três décadas, a evolução do mercado de feiras comerciais – graças ao esforço, empreendedorismo e criatividade de seus empresários -, comprova que a associação atingiu todos os objetivos a que se propôs alcançar desde de março de 1986.

Somos um segmento da economia já consolidado que estabeleceu a sua cadeia produtiva de prestadores de serviços, pela atuação firme da UBRAFE e de seus associados, mantendo-se sempre atentos aos rumos e tendências, participando dos debates e buscando soluções conjuntas diante dos movimentos econômicos brasileiros e com grande atuação no exterior.

BMF:  A entidade surgiu numa época em que as empresas nacionais dominavam o setor. Hoje, as multinacionais imperam nele, onde travam verdadeira batalha de mercado. Como fica o papel UBRAFE diante deste novo cenário?

Marcelo – O segmento de feiras comerciais no Brasil completa 58 anos. Começou quando Caio de Alcântara Machado, sem que houvesse no país a cultura das feiras de negócios e sem ter fornecedores e prestadores de serviços para atender suas necessidades, lançou a primeira edição da FENIT – Feira Nacional da Indústria Têxtil em 1958.

Em menos de seis décadas, pela qualidade, empreendedorismo, visão e dedicação total do empresariado brasileiro – que não poupou esforços em se aprimorar continuamente, estabelecendo as gestões de alta performance, com foco na qualificação de seus colaboradores -, os eventos realizados no Brasil demonstram estar em pé de igualdade com gestões multinacionais. Por isso existe o interesse desses grupos em investirem em nosso mercado.

As principais promotoras multinacionais são nossas associadas e a UBRAFE auxilia essas companhias no desenvolvimento desse mercado perante uma concorrência leal e respeitosa. E graças a Deus que o nosso mercado hoje é competitivo. Isto eleva o grau de qualidade dos serviços e produtos oferecidos, pois as promotoras sabem se não fizerem o melhor, seu cliente irá para o concorrente. Ou seja, o expositor escolherá outra feira.

Essas multinacionais, por projeção e pesquisas, sabendo que em pouco tempo voltaremos a crescer, com um mercado de mais de 200 milhões de consumidores, continuarão a desembarcar por aqui.

BMF: E a questão da disputa acirrada no setor industrial da Reed Exibitivos Alcantara Machado e a BTS Informa, as duas principais promotoras do País?

Marcelo – Concorrência sempre existiu entre as empresas. Em alguns momentos mais acirrada e em outros menos. A UBRAFE trabalha para que as promotoras desenvolvam suas atividades comerciais dentro de uma disputa leal, respeitosa e que, com isso, possam oferecer produtos e serviços de qualidade cada vez melhores. Com isso, os públicos expositores e visitantes serão os maiores beneficiados. Uma disputa mercadológica saudável no mercado sempre beneficiará, e muito, o desenvolvimento das atividades do segmento de feiras de negócios.

BMF: Nos últimos anos houve uma alternância de presidentes das principais promotoras na diretoria da entidade. Os interesses particulares dessas empresas não acabaram prevalecendo?

Marcelo – A alternância na presidência é a melhor forma de se estabelecer o bom convívio. Pelos nossos estatutos só se pode concorrer a dois mandatos seguidos. A associação tem seu conselho de administração formado por vice-presidentes, que representam várias outras promotoras.

Os interesses do mercado comum é o que prevalece e nunca o interesse único de uma promotora. A palavra final será sempre dada pelo conselho de administração da entidade. Somo uma entidade que representa e luta pelos interesses de um setor, por isso prevalece sempre o consenso.

BMF: Nos últimos anos, ocorreu um aumento significativo no número de feiras de negócios nos calendários.  O que leva à falsa impressão que o setor está em franco crescimento. O que não é verdade, pois a maioria dessas feiras não passam da segunda edição. Ao mesmo tempo, muitos eventos consolidados começaram a enfrentar problemas. Como analisa a atual situação desse mercado?

Marcelo – Em qualquer segmento econômico, não só na atividade promocional de feiras, existe o surgimento de novos empreendimentos e o fechamento de 27% ainda no primeiro ano e cerca de 50% não atingem o terceiro ano de atividades.

A maioria dessas empresas não conseguiu continuar a sua atividade por comportamento empreendedor pouco desenvolvido, falta de planejamento e gestão deficiente do negócio. Claro que existe o efeito positivo ou negativo da conjuntura econômica que se o empreendedor não souber o momento de avançar, ou aguardar, alterando seu planejamento, com certeza terá problemas. Aquele que é o chamado aventureiro e imagina que para realizar feira de negócios basta sonhar a noite e no dia seguinte lançar o evento, vai se frustrar. Feira é um negócio complexo e requer conhecimento, força de vontade, dedicação, renúncia a vida pessoal e firmeza de propósitos.

Trabalho há 48 anos na organização e planejamento de feiras. Já vi de tudo, já passamos por todo tipo de situação de mercado, os momentos de grande expansão e crescimentos maravilhosos, como de momentos mais difíceis. Quem não se lembra dos tempos de inflação gigante que pela manhã se praticava um valor e a tarde já era necessário negociar por outro? Já comercializamos o m2 em dólar, URV, UPC, Cruzado, Cruzeiro Novo, e em diferentes planos econômicos: Funaro, Bresser e Collor e por aí vai. Sempre saímos destas situações mais fortes e consolidados.

Atualmente em função do momento vivido em nossa economia, as promotoras realizam ajustes e algumas adequações mercadológicas. Mas diante dessas dificuldades não vimos nenhuma promotora fechar ou sair do mercado. Pelo contrário, todas estão fazendo mudanças e acertos em suas rotas. E isso se chama gestão, onde se prepara a empresa para os anos seguintes. Os verdadeiros empresários promotores de feiras sabem os momentos certos para alavancarem seus negócios.

BMF:  O senhor não acha que falta um trabalho conjunto e mais agressivo das promotoras, coordenado pela UBRAFE, para reforçar a imagem de marca das feiras?

Marcelo – Esse trabalho já vem sendo realizado e nestes 30 anos muito já melhorou e se modernizou. As feiras sempre foram e continuarão sendo ótimas ferramentas de marketing para as empresas. Além desse trabalho de sustentação e valorização do produto feira, que é um dos nossos objetivos também, temos procurado investir e muito na qualificação profissional desse setor, para que possam melhorar a qualidade dos produtos e serviços oferecidos ao mercado.

BMF: Por muito tempo os expositores sofreram com a falta de infraestrutura nos pavilhões no País. Agora, com a inauguração do São Paulo Expo, a maioria começou a se movimentar, principalmente em São Paulo. Quais eram as dificuldades da entidade em tentar solucionar esses problemas dos pavilhões, principalmente no caso do Anhembi?

Marcelo –  O problema era a questão de gestão política. Infelizmente, não dependia somente de nossa vontade. O que estavam ao nosso alcance e das promotoras, fizemos. Ao longo desses anos, sempre pressionamos a prefeitura para a modernização do Anhembi. Mas a coisa começava a fluir, e, de repente, mudava a gestão. Daí tínhamos de começar tudo de novo. Tanto é que muitas reformas no pavilhão foram feitas pelas próprias promotoras que não aguentaram esperar todo o processo político. A gestão municipal empenhava muita coisa. Agora com a inauguração do São Paulo Expo, ligado à administração estadual, o Anhembi, da prefeitura, começou a se movimentar para não perder clientes e espaço.

Nossa atuação junto aos pavilhões tem sido permanente. Estamos em vias de receber um pavilhão moderno e com facilidades consagradas em outros países, o São Paulo Expo. Além disso, o Expo Center Norte, vem se modernizando e trazendo mais conforto para promotores e expositores. Há pouco tempo, por exemplo, tivemos no local a inauguração da área de restaurantes nos mezaninos durante a Couromoda 2016. Temos o Centro de Convenções Frei Caneca, o Centro de Convenções Rebouças, o Transamérica Expo Center entre outros que oferecem excelentes instalações e facilidades para seus usuários.

BMF: A crise econômica, o crescimento do grau de apreensão das empresas em participar em feiras não pode ocasionar uma oferta maior de espaço do que a demanda?

Marcelo – Com certeza isso é uma perspectiva natural a ser analisada, mas, por exemplo, São Paulo como a maior cidade brasileira e a capital econômica do país, tem a capacidade de se refazer a cada desafio.

Acontecendo a oferta maior que a demanda, como regra econômica a tendência será um maior campo para negociação. Mas temos conversado com muitas promotoras, sejam nacionais ou multinacionais, que tem em seu planejamento o lançamento de novas feiras obedecendo a tendência mundial, ou seja, feiras mais segmentadas, com nichos definidos, menores em tamanho, com custos baixos de organização e principalmente na montagem dos estandes, com no máximo 100 a 120 expositores.

Feiras nesse formato são mais amigáveis quanto aos controles de custos e o público visitante será tanto quanto as feiras maiores no fator de maior qualificação.

BMF: Os eventos regionais, principalmente os da região Sul, têm sido os grandes destaques deste mercado. Como a entidade acompanha o desenvolvimento dessas novas praças com o crescimento de empresas que não são suas associadas?

Marcelo – Essas realizações obedecem a especificidades de cada região do Brasil e seria natural o surgimento destas feiras, podemos falar de eventos realizados com qualidade. Um exemplo é o mercado do Sul, onde despontam importantes feiras, assim como no Nordeste. Somos um país de dimensões geográficas muito grandes. Há uma diversificação de centros industriais espalhados pelo Brasil. E é natural que, como o tempo, hajam investimentos em feiras de negócios para melhor expor e apresentar o desenvolvimento das empresas e indústria local. A UBRAFE acompanha e vê com bons olhos este crescimento. E o fato dessas promotoras que atuam nos polos regionais não serem associadas à UBRAFE, é uma questão de tempo e oportunidade.

BMF: Há um projeto da UBRAFE que visa a descentralização de São Paulo justamente para abranger essas empresas em outras regiões? Quais suas principais diretrizes?

Marcelo – A UBRAFE não pensa em um projeto de descentralização, antes pensamos em buscar novos parceiros para o negócio de feiras. São Paulo é e sempre será, pelo menos ainda por muitos anos, a capital dos negócios no Brasil.

Isso não quer dizer que polos industriais fortíssimos como temos na região Sul e em alguns estados do Nordeste não estejam em franca e vitoriosa atuação na realização de feiras de negócios, cada um deles obedecendo a suas características predominantes.

Somos um país com dimensões continentais, com poucos investimentos federais em infraestrutura o que dificulta e encarece deslocamentos da maioria dos visitantes de outros estados para São Paulo, por este motivo as feiras regionais irão crescer e se desenvolver a contento. Mas estas mesmas empresas que participam dos eventos regionais necessitarão participar dos eventos em São Paulo para manter negócios com seus clientes e prospectar novos na Região Sudeste.

BMF: Um dos principais investimentos da entidade tem sido a busca de maior qualificação dos profissionais que atuam na área. Tem alguma novidade nesse campo?

Marcelo – A UBRAFE sempre buscou oferecer e indicar cursos profissionalizantes e de aperfeiçoamento para os funcionários de seus associados. Entendemos que somente através da qualificação da mão de obra, em todos os segmentos de uma empresa é que se poderá prestar o melhor serviço e entregar o prometido ao cliente.

Em parceria com o SINDIPROM – Sindicato das Empresas Promotoras, Organizadoras e de Montagem de Feiras, Congressos e Eventos do Est. De São Paulo, temos realizado vários convênios e oferecido concorridos cursos de certificação a exemplo das Normas Técnicas inerentes a nossa atividade como as de trabalho em altura e a do uso de EPI equipamento de segurança e proteção individual, ou ainda os cursos para certificação internacional em feiras e eventos, o CEM – Certified Exhibitions Management, em convênio com a New Events Global, da Europa.

Para 2016 consta de nossa programação a oferta de novas edições desses cursos e o acréscimo de outros.

BMF: Quais as expectativas da entidade com relação ao mercado em 2016?

Marcelo – Estamos com excelentes perspectivas, sabemos com certeza que tudo é questão de um bom planejamento e uma perfeita análise da situação, sabendo a hora certa de ajustar e a hora certa de expandir. Estamos no momento de ajustes no setor. Com certeza há lançamentos, mas com produtos (feiras) adequados ao tamanho e à realidade do mercado atual.

Atravessamos um momento econômico não favorável às atividades industriais, que enfrentam dificuldades. Mesmo assim, os expositores não deixam de participar dos eventos. Tanto é que a taxa de não renovação no setor é uma das mais baixas dos últimos anos, de apenas 12%. As empresas podem diminuir área, mas não deixam de participar.

Por essa razão e pela grandiosidade do mercado de feiras, as promotoras internacionais continuam investindo por aqui e acreditando na rápida recuperação do mercado e a volta do bom humor e da confiança do empresariado nacional.

Prova disso é que nos próximos anos novas promotoras estrangeiras desembarcarão no Brasil, entre elas, italianas, espanholas, alemãs e inglesas. O futuro do mercado brasileiro de feiras só existe um caminho: o do crescimento.